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sexta-feira, novembro 03, 2006

coisas para se fazer na Presidência da República quando você não está morto

Suponhamos que você seja o presidente da República de um país onde os controladores de vôo entrem em greve. Você tem várias opções de medidas para tomar. Uma delas pode ser até descansar na Bahia. Ronald Reagan escolheu aproveitar a greve para mostrar o que é ser um presidente da República.
Em 31 de agosto de 1981, cerca de 13 mil controladores de vôo, dos 17,5 mil que eram da Organização Profissional de Controladores do Pacto Aéreo (PATCO), cruzaram os braços. Era verão nos EUA; época de muitas viagens, e a intenção dos controladores de vôo era exatamente provocar o caos nos aeroportos para ter suas reivindicações atendidas. Que eram salários mais altos, menos dias de trabalho por semana, e uma aposentadoria mais cedo, aos 20 anos de serviço, com o argumento de que a profissão é uma das mais estressantes do mundo (e é mesmo; jornalistas e socorristas de ambulância também sofrem o mesmo nível de estresse, aliás). No mesmo dia, Reagan, que não estava descansando na praia, avisou: ou eles voltavam a trabalhar em 48 horas ou iriam ser punidos. Uma lei de 1955 instituía até cadeia para funcionários federais nos EUA - nada tão duro como o massacre dos grevistas, que Trotski praticou contra marinheiros de uma base russa, mas para padrões ocidentais, uma medida bem dura. Mesmo assim, a lei não "havia pegado" em anos anteriores, e não impediu 22 greves de funcionários neste período, inclusive dos controladores em 1969 e 1970.
Reagan viu nesta crise uma oportunidade -a de mostrar para o país que era um presidente mais presidencial do que o antecessor Jimmy Carter, que hoje tem a imagem de humanitário mas saiu com fama de bunda-mole por tentar contentar a todos e não satisfazer a ninguém. O plano de emergência da agência federal de aviação (FAA) botou cerca de 3 mil supervisores ao lado de 2 mil controladores de vôo que não aderiram à greve, mais 900 controladores de vôo das forças armadas para segurar o intenso tráfego aéreo americano. Isso significou a redução do número de vôos e até o fechamento de pequenos aeroportos. Os líderes da PATCO previram acidentes e o caos por causa do plano - o que não aconteceu. Cerca de 80% dos vôos marcados, durante a greve, saíram do ar na hora prevista.
A escola de treinamento de controladores da FAA em Oklahoma City abriu vagas para treinar novos profissionais, num curso que duraria de 17 a 20 semanas - e apareceu o quádruplo de candidatos suficientes para preencher as vagas. Todos de olho nos salários dos controladores, que já eram altos, e não se importando muito com o estresse.
Esses altos salários, mais a interpretação de que os controladores estavam se lixando para o resto do mundo, fez com que a população ficasse do lado do governo, e não dos grevistas. Houve alguma tentativa de solidariedade de controladores de vôo de outros países (os do Canadá e Portugal boicotaram por dois dias vôos dos EUA, mas foi só) e protestos de outros líderes sindicais, mas mais porque estes viram no que daria o fracasso da greve - a diminuição do poder político dos sindicatos. Pilotos e mecânicos de avião, chamados para aderir à paralisação, continuaram trabalhando, apesar do apelo do presidente da AFL-CIO, Lane Kirkland, de que Reagan estava fazendo um "massacre" na repressão aos controladores parados.
Não chegou a ser como Trotsky gostaria, mas foi realmente um massacre. Líderes da PATCO foram para a cadeia, porque o governo resolveu cumprir a tal lei de 1955. O Departamento de Justiça indiciou 75 controladores de vôo. Juízes federais (lá não tem justiça do trabalho) determinaram multas contra a PATCO que chegaram a U$ 1 milhão por dia parado. Mais de 11 mil controladores foram demitidos no dia 5 de agosto de 1981 - ou seja, Reagan prometeu e cumpriu - e 1,2 mil largaram a paralisação depois de uma semana. Em outubro, a Agência Federal de Relações de Trabalho tirou o certificado de funcionamento da PATCO.
A dureza continuou: dois meses depois do fim oficial da greve, em novembro de 1982, um comitê do congresso recomendou a recontratação de alguns dos grevistas, dizendo que os EUA tinham apenas dois terços do número destes profissionais necessários para a completa segurança dos vôos no país. O secretário de transportes Drew Lewis, que havia treinado secretamente os substitutos dos grevistas, durante as negociações no primeiro semestre de 1981, cortou logo a conversa e nem quis receber Robert Polit, líder da PATCO. Dois anos depois, mesmo com 20% a menos de controladores em relação aos anos anteriores à greve, o tráfego aéreo tinha crescido 6% sem problemas.
E Reagan? O primeiro presidente eleito a ser sindicalizado da AFL-CIO também se tornou o primeiro presidente a derrubar o movimento sindical em 60 anos -e saiu daí com a imagem de líder necessária para passar outras mudanças e reformas que reergueram a economia americana e o fizeram se reeleger e eleger seu vice como sucessor. "Eu apoiei sindicatos e os direitos dos trabalhadores para se organizar e negociar coletivamente em toda a minha vida, mas nenhum presidente pode tolerar uma greve ilegal de funcionários federais", ensinou este presidente em suas memórias. Mas nem todo presidente gosta de ser presidente, só gosta de ser eleito presidente.

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