sábado, novembro 19, 2005
A memória da Guerra Grande
Moradora de uma pequena fazenda do Mato Grosso do Sul, Aminta Ester Lynch, ainda aos 80 anos, acorda de madrugada para cuidar da casa e da criação de bichos de seda na cidade de Terenos, dormindo às 19 horas. Ouviu do pai o conselho para nunca se meter em política. Não foi à toa, a política determinou a fuga do pai e dela do Uruguai, onde eles eram inimigos dos colorados, os mesmos adversários de uma parente distante de Aminta - Elisa Lynch, a mulher de Solano López, o ditador derrotado por Brasil, Uruguai e Argentina na Guerra do Paraguai. O pequeno perfil de Aminta está ao lado de boas fotos do conflito e algumas análises sobre ele no site http://guerragrande.ledes.net/, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Segue a tendência predominante nas universidades brasileiras, na área de Humanas, de revisar o que não tem importância e priorizar a banalidade, ao chamar a Guerra do Paraguai de "Guerra Grande". E ainda falta muita coisa que é prometida na sua página de abertura. Mas vale uma visita.
segunda-feira, novembro 14, 2005
O último dos austríacos
Peter Drucker morreu no dia 11, tranqüilo, em casa. Fiquei sabendo hoje: na leitura de jornais, não notei grandes destaques sobre isso. O que é uma pena: ele talvez seja o último de uma geração de gente criada na Europa Central em países destruídos pela I Guerra Mundial e que manteve a sanidade e a crença na razão durante um século em que se escreveu e se disse muita besteira e muita gente morreu por causa disso. Li menos do que devia destes sujeitos: Karl Popper, Ernst Gombrich, Ludwig von Mises... o que os unia era principalmente a clareza. Todos escreviam para ser entendidos, não para fundar uma seita de fanáticos em universidades, como os que os criticavam. E todos se preocupavam com o sentido ético de seus atos: Drucker deplorou a quebra da bolsa de 1987 principalmente como efeito da falta de ética na manipulação das ações, ele lembrou que a ética também é necessária para ganhar dinheiro.
Quem não gosta de estudar administração pode procurar em algum sebo "Reminiscências", um livro de memórias de Drucker. Há as recordações de sua incrível avó, uma espécie de precursora da globalização financeira e dos computadores, com seus vários passaportes que lhe permitiam trocar dinheiro pelo melhor câmbio sempre que ia a um país novo dos que haviam sido criados dos restos do Império Austro-Húngaro e sua mania de guardar xícaras sem asas e asas sem xícaras. Há o relato de como ele sentiu "algo estranho" ao chegar nos Estados Unidos durante a era do New Deal - a ajuda que recebeu de gente desconhecida, que se prontificou a facilitar a sua entrada no país e em lhe procurar emprego, era um sinal de que uma nova idéia estava no ar para tirar o país da crise. Há o relato de um colega de jornal em Viena, o mais medíocre de todos, que foi encarregado de cobrir o partido nazista austríaco, acabou se filiando a ele e tornou-se um dos seus piores criminosos na Áustria. "Esses caras estão falando sério, Peter, e quando eles forem fazer o que querem fazer, vão ter de buscar gente com estômago para isso - e é aí que eu entro", disse o amigo. As explicações do futuro nazista são uma aula do que pode provocar o excesso de ressentimento. Há a história do casal de nobres austríacos que abraçou o socialismo como forma de evitar uma outra guerra mundial - e se matou por não conseguir (o nazista também se matou, aliás). São histórias de vida enriquecedoras, e, principalmente, que fizeram Drucker pensar, refletir, aprender. Um hábito que está morrendo com os velhinhos austríacos.
Quem não gosta de estudar administração pode procurar em algum sebo "Reminiscências", um livro de memórias de Drucker. Há as recordações de sua incrível avó, uma espécie de precursora da globalização financeira e dos computadores, com seus vários passaportes que lhe permitiam trocar dinheiro pelo melhor câmbio sempre que ia a um país novo dos que haviam sido criados dos restos do Império Austro-Húngaro e sua mania de guardar xícaras sem asas e asas sem xícaras. Há o relato de como ele sentiu "algo estranho" ao chegar nos Estados Unidos durante a era do New Deal - a ajuda que recebeu de gente desconhecida, que se prontificou a facilitar a sua entrada no país e em lhe procurar emprego, era um sinal de que uma nova idéia estava no ar para tirar o país da crise. Há o relato de um colega de jornal em Viena, o mais medíocre de todos, que foi encarregado de cobrir o partido nazista austríaco, acabou se filiando a ele e tornou-se um dos seus piores criminosos na Áustria. "Esses caras estão falando sério, Peter, e quando eles forem fazer o que querem fazer, vão ter de buscar gente com estômago para isso - e é aí que eu entro", disse o amigo. As explicações do futuro nazista são uma aula do que pode provocar o excesso de ressentimento. Há a história do casal de nobres austríacos que abraçou o socialismo como forma de evitar uma outra guerra mundial - e se matou por não conseguir (o nazista também se matou, aliás). São histórias de vida enriquecedoras, e, principalmente, que fizeram Drucker pensar, refletir, aprender. Um hábito que está morrendo com os velhinhos austríacos.
sexta-feira, novembro 11, 2005
No resto do mundo, os pobres também choram vendo novela
A globalização, no seu aspecto cultural, sempre é apontada como sinônimo de dominação cultura do cinema americano, do rock americano, da eliminação das diferenças culturais e manifestações regionais pela hegemonia da produção do primeiro mundo, etc., não? Mas um jornalista e teatrólogo venezuelano alerta que as novelas da América Latina chegam a ameaçar as produções hollywoodianas, ao se espalhar por todo o mundo, chegando em lugares como a Polônia, Rússia e Indonésia, por sua capacidade de manter os pobres "pregados na cadeira". O artigo está em http://www.foreignpolicy.com/story/cms.php?story_id=3269&print=1
quinta-feira, novembro 10, 2005
tudo compreender é tudo perdoar
Amanhã, Mykensie Martin deve encontrar-se com os pais americanos em Brasília, após sumir de Carmo de Paranaíba, no domingo, e chamando até a atenção do FBI. Deve levar um esporro e ser alistada em seguida no Exército para servir no Iraque e ver o que é bom.
Eu compreendo e muito os motivos daquela moça. Ela sai do equivalente a Casimiro de Abreu no Oregon pra um programa de intercâmbio no Brasil achando que ia ver muito samba, lambada, jogo de futebol. Vai parar em Carmo do Paranaíba num intercâmbio do Rotary. Aí, doida para sambar, lambadear, fazer a Ola no Maracanã, é levada para o 22o Jantar Comemorativo dos 22 Anos da Fundação do Rotary Carmoparaibano, no qual se homenageará a memória do dr. Odilio Mendes Maia, fundador do Rotary de Carmo do Paranaíba que durante anos contribuiu para o desenvolvimento da comunidade à frente da administração da Farmácia Flôres, que fica na pracinha da Matriz de Carmo do Paranaíba. No evento, o diretor de eventos do Rotary de Patos de Minas faz uma menção em seu discurso à "presença de nossa irmã de plagas norte-americanas", puxando uma salva de palmas, ao mesmo tempo em que propõe a votação de uma menção contra a invasão do Iraque nos EUA para ser votada no 23o Jantar Comemorativo dos 23 anos de Fundação do Rotary Carmoparaibano. Tudo é traduzido para a moça pela sua "brazilian sister", uma gordota com espinhas vermelhas na bochecha branca, aparelho nos dentes, cabelo quebradiço preso por uma fivela em forma de abelhinha, que lhe dispara olhares lésbicos.
Passa-se uma semana. Neste período, na Escola Futuro Feliz, ela é informada pela irmã lésbica quem é Magáiver, o principal galã dos adolescentes de Carmo do Paranaíba, que Christhyane (mudou a grafia depois que foi a um numerólogo) é a menina mais invejada pelas mulheres e amada pelos homens de Patos de Minas, e que deve evitar Celsinho, um aluno repetente e mal barbeado que é a vergonha de sua família, uma das melhores de Carmo do Paranaíba, mas que voltou diferente desde as férias em Cabo Frio, há dois anos, com uma tia solteira aposentada do IAPI que se mudou para lá. O professor de matemática, talvez inspirado pelo Tio Glauco da novela, tenta conquistar-lhe primeiro com as piadas que sempre fazem sucesso na aula de equações de segundo grau, e depois, oferecendo-lhe uma carona na garupa de sua moto, com um pequeno desvio pelo acesso à cachoeira mais bonita de Patos de Minas, onde ele tenta estuprá-la.
Curiosa, no segundo dia, a menina tenta um contato com o "perigoso" Celsinho. Ela a leva para o seu quarto, e.... lá a submete a uma sessão de cinco horas de audição de rock progressivo, com direito ao álbum triplo ao vivo do Emerson Lake and Palmer e toda a coleção de Rick Wakeman.
Na sexta à noite, a moça vai para o principal "agito" de Carmo do Paranaíba: a pizzaria Três Irmãos, que fica ao lado do Posto Dois Irmãos, na entrada de Patos de Minas. Que, aliás, é adornada por um monumento dos 22 anos do Rotary. Numa mesa grande todos prestam atenção ao relato que Arnaldinho, filho do prefeito, faz de "um lugar manêro" que ele acabou de conhecer nas suas férias no Rio: a Ilha dos Pescadores, manja? Enquanto isso, a "irmã brasileira" roça suas coxas gordas na americana para lhe dizer no ouvidinho: "amanhã nós vamos juntas para o culto mórmon em Unaí, né?"
Eu compreendo e muito os motivos daquela moça. Ela sai do equivalente a Casimiro de Abreu no Oregon pra um programa de intercâmbio no Brasil achando que ia ver muito samba, lambada, jogo de futebol. Vai parar em Carmo do Paranaíba num intercâmbio do Rotary. Aí, doida para sambar, lambadear, fazer a Ola no Maracanã, é levada para o 22o Jantar Comemorativo dos 22 Anos da Fundação do Rotary Carmoparaibano, no qual se homenageará a memória do dr. Odilio Mendes Maia, fundador do Rotary de Carmo do Paranaíba que durante anos contribuiu para o desenvolvimento da comunidade à frente da administração da Farmácia Flôres, que fica na pracinha da Matriz de Carmo do Paranaíba. No evento, o diretor de eventos do Rotary de Patos de Minas faz uma menção em seu discurso à "presença de nossa irmã de plagas norte-americanas", puxando uma salva de palmas, ao mesmo tempo em que propõe a votação de uma menção contra a invasão do Iraque nos EUA para ser votada no 23o Jantar Comemorativo dos 23 anos de Fundação do Rotary Carmoparaibano. Tudo é traduzido para a moça pela sua "brazilian sister", uma gordota com espinhas vermelhas na bochecha branca, aparelho nos dentes, cabelo quebradiço preso por uma fivela em forma de abelhinha, que lhe dispara olhares lésbicos.
Passa-se uma semana. Neste período, na Escola Futuro Feliz, ela é informada pela irmã lésbica quem é Magáiver, o principal galã dos adolescentes de Carmo do Paranaíba, que Christhyane (mudou a grafia depois que foi a um numerólogo) é a menina mais invejada pelas mulheres e amada pelos homens de Patos de Minas, e que deve evitar Celsinho, um aluno repetente e mal barbeado que é a vergonha de sua família, uma das melhores de Carmo do Paranaíba, mas que voltou diferente desde as férias em Cabo Frio, há dois anos, com uma tia solteira aposentada do IAPI que se mudou para lá. O professor de matemática, talvez inspirado pelo Tio Glauco da novela, tenta conquistar-lhe primeiro com as piadas que sempre fazem sucesso na aula de equações de segundo grau, e depois, oferecendo-lhe uma carona na garupa de sua moto, com um pequeno desvio pelo acesso à cachoeira mais bonita de Patos de Minas, onde ele tenta estuprá-la.
Curiosa, no segundo dia, a menina tenta um contato com o "perigoso" Celsinho. Ela a leva para o seu quarto, e.... lá a submete a uma sessão de cinco horas de audição de rock progressivo, com direito ao álbum triplo ao vivo do Emerson Lake and Palmer e toda a coleção de Rick Wakeman.
Na sexta à noite, a moça vai para o principal "agito" de Carmo do Paranaíba: a pizzaria Três Irmãos, que fica ao lado do Posto Dois Irmãos, na entrada de Patos de Minas. Que, aliás, é adornada por um monumento dos 22 anos do Rotary. Numa mesa grande todos prestam atenção ao relato que Arnaldinho, filho do prefeito, faz de "um lugar manêro" que ele acabou de conhecer nas suas férias no Rio: a Ilha dos Pescadores, manja? Enquanto isso, a "irmã brasileira" roça suas coxas gordas na americana para lhe dizer no ouvidinho: "amanhã nós vamos juntas para o culto mórmon em Unaí, né?"
terça-feira, novembro 08, 2005
poitiers de novo
Daqui onde estamos, parece que esses tumultos na França são o resultado do preconceito que "excluiu" os jovens pobres, não? De repente, a França parece estar sendo governada pela Klu Klux Klan e os tocadores de fogo em ônibus estão apenas se "exprimindo". Mas eu prefiro ficar com a análise de um amigo meu que morou muito tempo lá, conhece essa realidade e não é reprimido pela pressão social de parecer bonzinho - esta sim, uma pressão que realmente produz uma geração de excluídos: aqueles que pensam pela própria cabeça. Mas a análise dele, por um mail, está aí abaixo. Nem corrijo a linguagem mailzística, acho que estragaria o estilo:
"aqueles subúrbios têm um monte de conjunto amarelinho (irajá) só q cheio de árabe dentro. em paris tb tem bastante, nas áreas mais pobres. esses caras passam o dia vagabundeando e fazendo merda. tipo cuspir na cara de meninas desacompanhadas no metrô (amiga minha viveu isso), assaltar e agredir covardemente as pessoas (conheço cara q passou por isso) e eventualmente praticar agressão sexual contra mulheres desacompanhadas. são extremamente covardes e agressivos, tipo grupos de 7, 8 marmanjos contra uma ou duas vítimas. tem linha de metrô q as mulheres evitam depois de uma certa hora com medo de passar por esse tipo de perrengue. ou seja, esses narigudos tocam o maior terror por lá, mas ai de quem levantar o dedo contra eles, vão dizer q é perseguição, racismo, intolerância religiosa etc, e isso num país como a frança, sacumé, pega mal pacas. de qq forma, o q eu sempre disse é q essa situação social era um barril de pólvora, q um dia alguém, puto com essa situação, ia dar um tiro na cara de um árabe desses e a favela (no caso deles, os amarelinhos da vida, ou HLM, os BNHs deles) ia vir abaixo."
"aqueles subúrbios têm um monte de conjunto amarelinho (irajá) só q cheio de árabe dentro. em paris tb tem bastante, nas áreas mais pobres. esses caras passam o dia vagabundeando e fazendo merda. tipo cuspir na cara de meninas desacompanhadas no metrô (amiga minha viveu isso), assaltar e agredir covardemente as pessoas (conheço cara q passou por isso) e eventualmente praticar agressão sexual contra mulheres desacompanhadas. são extremamente covardes e agressivos, tipo grupos de 7, 8 marmanjos contra uma ou duas vítimas. tem linha de metrô q as mulheres evitam depois de uma certa hora com medo de passar por esse tipo de perrengue. ou seja, esses narigudos tocam o maior terror por lá, mas ai de quem levantar o dedo contra eles, vão dizer q é perseguição, racismo, intolerância religiosa etc, e isso num país como a frança, sacumé, pega mal pacas. de qq forma, o q eu sempre disse é q essa situação social era um barril de pólvora, q um dia alguém, puto com essa situação, ia dar um tiro na cara de um árabe desses e a favela (no caso deles, os amarelinhos da vida, ou HLM, os BNHs deles) ia vir abaixo."
sexta-feira, novembro 04, 2005
dupla caipira
Eles têm muito em comum: foram escolhidos pelos seus cargos menos pelo que são de verdade e mais pelos símbolos de simplicidade que suas figuras emanavam, de promessa de um mundo mais simples, mais inteligível: um encarnou os "valores morais", e o outro, o "trabalhador no poder", embora tenha deixado o ofício na década de 70. Do ponto distante em que vejo, parecem ter se cercado de leninistas, não no conteúdo, mas na forma: "elites de vanguarda" arrogantes que acha que podem ditar os destinos de seus países sem levar em conta o que o resto da população acha, o que diz a lei - se eles estão no caminho certo da história, se eles descobriram qual o rumo certo do desenvolvimento do mundo, o que importa revelar identidade de agente secreto ou saquear o estado e subornar parlamentares? É tudo para um bem comum. Agora, têm de responder por ilegalidade que realmente talvez eles nem compreendam. Talvez Lula e Bush acabem afogando as mágoas um no ombro do outro no churrascão de amanhã, depois do terceiro copo de cortezano.
quarta-feira, novembro 02, 2005
sweet memories
"A OIJ era ligada à KGB!!! A gente era manipulado pela KGB!!!", ouvi numa noite numa discussão em um bar em 1989. Eu estava em Vitória, e ouvia a discussão entre um dirigente nacional da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) com outro dirigente, do Espírito Santo. Os dois talvez nem se lembrem disso, nem vale a pena citar seus nomes. Eu sim.
A revelação (para mim) do segredo que ligava a Organização Internacional dos Jornalistas, com sede em Praga, ao serviço secreto soviético me fez entrar em um livro de John Le Carré no meio um lugar dos mais improváveis ambientes para um romance de espionagem - um bar com chope quente, muitos jornalistas fumantes e falantes, numa noite quente.
A frase foi particularmente impactante para mim porque me lembro de um professor do curso de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo particularmente tacanho e desonesto, chamado Renato Soares, em uma aula que ele dava sobre Ética em Jornalismo. Na verdade, a aula era de doutrinação de esquerda - Renato era, é ainda, presidente do PSB no estado. E nesta aula, ele determinou - sem dizer por quê, sem dar chance de ser contradito - que das duas entidades internacionais de jornalismo que existem no mundo, a OIJ era a "boa, de esquerda"; a outra, sediada nos Estados Unidos, era a "reacionária, de direita".
Foi simplório assim. Era este o tipo de ensinamentos que se davam e eu acredito que ainda se dão em cursos de ciências humanas, nas universidades brasileiras, nos anos 80. O que talvez explique muito certas repetições de assuntos, abordagens, clichês que leio na imprensa que me dão um tédio profundo. São todos filhotes daqueles clichês ministrados como cocaína na veia nos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas.
Voltando à discussão no boteco, dois anos depois da lavagem cerebral do professor tacanho: a f]revelação de que a boazinha entidade de esquerda era peça de propaganda do totalitarismo russo foi feita como um último argumento que o dirigente nacional da Fenaj lançou para tentar convencer o colega de que, em 1989, o comunismo tinha acabado mesmo, de vez. Note bem, ele ainda se considerava de esquerda - mas não era tão de esquerda assim para ser tão insensível aos fatos daquele looongo ano. O meu amigo dirigente capixaba não, tentava escapar pela tangente dizendo que "o que morreu foi uma forma burocrática de socialismo" e "é preciso fazermos uma autocrítica".
Nestes 16 anos, tudo que eu tenho visto de movimentos como o MST e o PT, que cheguei a acompanhar de bem perto, foi escapadas pela tangente. Sempre com autocríticas convocadas e nunca feitas, refundações do socialismo que apenas repetem o que já foi defendido, fundado, testado e derrotado pelos fatos, palavras de ordem simplistas para demonizar quem não concorda com os lugares-comuns. É tudo muito cansativo. Esse povo, essa.. taí, essa "raça", por que não?, é muito chata, e consegue tornar tudo ao seu redor mais chato ainda.
A revelação (para mim) do segredo que ligava a Organização Internacional dos Jornalistas, com sede em Praga, ao serviço secreto soviético me fez entrar em um livro de John Le Carré no meio um lugar dos mais improváveis ambientes para um romance de espionagem - um bar com chope quente, muitos jornalistas fumantes e falantes, numa noite quente.
A frase foi particularmente impactante para mim porque me lembro de um professor do curso de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo particularmente tacanho e desonesto, chamado Renato Soares, em uma aula que ele dava sobre Ética em Jornalismo. Na verdade, a aula era de doutrinação de esquerda - Renato era, é ainda, presidente do PSB no estado. E nesta aula, ele determinou - sem dizer por quê, sem dar chance de ser contradito - que das duas entidades internacionais de jornalismo que existem no mundo, a OIJ era a "boa, de esquerda"; a outra, sediada nos Estados Unidos, era a "reacionária, de direita".
Foi simplório assim. Era este o tipo de ensinamentos que se davam e eu acredito que ainda se dão em cursos de ciências humanas, nas universidades brasileiras, nos anos 80. O que talvez explique muito certas repetições de assuntos, abordagens, clichês que leio na imprensa que me dão um tédio profundo. São todos filhotes daqueles clichês ministrados como cocaína na veia nos primeiros semestres dos cursos de ciências humanas.
Voltando à discussão no boteco, dois anos depois da lavagem cerebral do professor tacanho: a f]revelação de que a boazinha entidade de esquerda era peça de propaganda do totalitarismo russo foi feita como um último argumento que o dirigente nacional da Fenaj lançou para tentar convencer o colega de que, em 1989, o comunismo tinha acabado mesmo, de vez. Note bem, ele ainda se considerava de esquerda - mas não era tão de esquerda assim para ser tão insensível aos fatos daquele looongo ano. O meu amigo dirigente capixaba não, tentava escapar pela tangente dizendo que "o que morreu foi uma forma burocrática de socialismo" e "é preciso fazermos uma autocrítica".
Nestes 16 anos, tudo que eu tenho visto de movimentos como o MST e o PT, que cheguei a acompanhar de bem perto, foi escapadas pela tangente. Sempre com autocríticas convocadas e nunca feitas, refundações do socialismo que apenas repetem o que já foi defendido, fundado, testado e derrotado pelos fatos, palavras de ordem simplistas para demonizar quem não concorda com os lugares-comuns. É tudo muito cansativo. Esse povo, essa.. taí, essa "raça", por que não?, é muito chata, e consegue tornar tudo ao seu redor mais chato ainda.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Aliás...
Por falar em Bush, um livro que poderia ser publicado aqui no Brasil é Fogo Grego. O nome do autor se me lhe escapa: o da editora portuguesa que publicou o volume que li, também. Mas neste livro, há um interessante alerta de que, depois de ser o inspirador original da idéia de que é possível regular e ordenar ao máximo o ser humano, que acabou por inspirar as ditaduras do século XX, Platão era agora o inspirador dos neoconservadores que tanto dominam o governo dos EUA. O filósofo grego, com Marx e Hegel, foi um dos atacados por Karl Popper no livro "A Sociedade Aberta e seus Inimigos", pelo teor anti-democrático das suas idéias.
No gabinete, e só com água mineral
Ouvi na TV hoje que Lula e Bush devem se encontrar em um churrasco. Má idéia, má idéia. O encontro devia ser o mais protocolar possível. Bush é alcoólatra. Se há uma coisa que ele saberia fazer, é medir o peso e a influência do álcool na vida de um homem.
domingo, outubro 30, 2005
Manifesto que vem de Cuba
O povo do Consenso Democrático, movimento que luta por mais liberdade em Cuba, divulgou um manifesto para reafirmar seus princípios, como forma de reagir ao aumento da repressão pela ditadura de Castro. Abaixo, o texto:
"Ante a escalada repressiva pelo governo cubano nestes últimos meses, que alcançaram vários de nossos membros e ativistas, e aos responsáveis pela revista digital Consenso, o Arco Progressista, expressão política institucional do pensamento socialista e social-democrata cubano, DECLARA:
1. Sua solidariedade, tal como fizemos desde setembro, com todos nosso conpatriotas diante dos atos de repúdio que sofreram ou sofrem com esta escalada de barbárie e incivilidade com o que o governo cubano, contra a Constituição do país, as normas básicas que fundamentam os stados modernos e os princípios de direito internacional, pretende calar as vozes pacíficas dos lutadores pró-democracia em Cuba.
2. Seu agradecimento a todos aqueles que dentro e fora de Cuba expressaram sua solidariedade com o Conselho de Redação de Consenso e com os membros de nossa associação Arco Progressista, pelo ato de repúdio sofrido em 10 de outubro. Um agradecimento que por certo inclui os socialistas, social-democratas e progressistas do mundo - do Partido Socialista da França, do Grupo Socialista do Parlamento Europeu, dos Democratas de Esquerda da Itália, do Partido Socialista Obreiro Espanho e da Alternativa Social-Democrata Camponesa do México - e de numerosos intelectuais de Cuba e de outros países.
3. Seu compromisso reafirmado, independientemente de conjunturas ou circunstâncias adversas, con la busca pacífica da democratização e o reconhecimento institucional, integral e efetivo dos direitos humanos. Neste sentido, soma sua voz àqueles que felicitaram e reconheceram as Damas de Branco por terem recebido o Prêmio Sakarov de Direitos Humanos que outorga o Parlamento Europeu, e estende sua felicitação à advogada nigeriana Hauwa Ibrahim e aos Repórteres sem Fronteiras, agraciados também por sua luta em favor dos direitos da mulher no mundo islâmico e seu compromisso com a liberdade de expressão, respectivamente.
4. Seu apego à estratégia de alcançar mudanças pacíficas por meio do diálogo, a transição pactuada e la reconciliação nacional, e portanto, sua distância de toda estratégia de desestabilização – negativa para a segurança nacional de Cuba e para a mudança que queremos – e que provocadoramente o gobierno agora atiça con a reanimação destes atos de repúdio. Neste sentido, reafirma seu compromiso con a não-violência, o pacifismo, o civilismo e o trabalho nos marcos da lei para regular os conflictos sociais e políticos.
5. Sua reafirmação, ao lado dos valores da liberdade, justiça social, solidaridade, pluralismo, moderação e defesa do direito das minorias, e da soberania e independência de Cuba, assim como do multilateralismo no direito internacional e contra as medidas externas de arrocho, pressão e isolamento.
6. Finalmente, o Arco Progresista responsabiliza diretamente o governo de Cuba por qualquer dano à integridad física, psicológica e moral e aos interesses pessoais de nossos membros e simpatizantes, assim como de seus familiares.
Manuel Cuesta Morúa
Porta-voz
____________________________
Sede de Referencia: Edificio C-11 Apto 4 Zona 6 Alamar. Habana del Este. Ciudad Habana. Cuba.
Telefax:+53-(0)7-93 09 12. Celular (para contacto solamente) 05 284 03 88
Correo electrónico: cosdec2002@yahoo.es
"Ante a escalada repressiva pelo governo cubano nestes últimos meses, que alcançaram vários de nossos membros e ativistas, e aos responsáveis pela revista digital Consenso, o Arco Progressista, expressão política institucional do pensamento socialista e social-democrata cubano, DECLARA:
1. Sua solidariedade, tal como fizemos desde setembro, com todos nosso conpatriotas diante dos atos de repúdio que sofreram ou sofrem com esta escalada de barbárie e incivilidade com o que o governo cubano, contra a Constituição do país, as normas básicas que fundamentam os stados modernos e os princípios de direito internacional, pretende calar as vozes pacíficas dos lutadores pró-democracia em Cuba.
2. Seu agradecimento a todos aqueles que dentro e fora de Cuba expressaram sua solidariedade com o Conselho de Redação de Consenso e com os membros de nossa associação Arco Progressista, pelo ato de repúdio sofrido em 10 de outubro. Um agradecimento que por certo inclui os socialistas, social-democratas e progressistas do mundo - do Partido Socialista da França, do Grupo Socialista do Parlamento Europeu, dos Democratas de Esquerda da Itália, do Partido Socialista Obreiro Espanho e da Alternativa Social-Democrata Camponesa do México - e de numerosos intelectuais de Cuba e de outros países.
3. Seu compromisso reafirmado, independientemente de conjunturas ou circunstâncias adversas, con la busca pacífica da democratização e o reconhecimento institucional, integral e efetivo dos direitos humanos. Neste sentido, soma sua voz àqueles que felicitaram e reconheceram as Damas de Branco por terem recebido o Prêmio Sakarov de Direitos Humanos que outorga o Parlamento Europeu, e estende sua felicitação à advogada nigeriana Hauwa Ibrahim e aos Repórteres sem Fronteiras, agraciados também por sua luta em favor dos direitos da mulher no mundo islâmico e seu compromisso com a liberdade de expressão, respectivamente.
4. Seu apego à estratégia de alcançar mudanças pacíficas por meio do diálogo, a transição pactuada e la reconciliação nacional, e portanto, sua distância de toda estratégia de desestabilização – negativa para a segurança nacional de Cuba e para a mudança que queremos – e que provocadoramente o gobierno agora atiça con a reanimação destes atos de repúdio. Neste sentido, reafirma seu compromiso con a não-violência, o pacifismo, o civilismo e o trabalho nos marcos da lei para regular os conflictos sociais e políticos.
5. Sua reafirmação, ao lado dos valores da liberdade, justiça social, solidaridade, pluralismo, moderação e defesa do direito das minorias, e da soberania e independência de Cuba, assim como do multilateralismo no direito internacional e contra as medidas externas de arrocho, pressão e isolamento.
6. Finalmente, o Arco Progresista responsabiliza diretamente o governo de Cuba por qualquer dano à integridad física, psicológica e moral e aos interesses pessoais de nossos membros e simpatizantes, assim como de seus familiares.
Manuel Cuesta Morúa
Porta-voz
____________________________
Sede de Referencia: Edificio C-11 Apto 4 Zona 6 Alamar. Habana del Este. Ciudad Habana. Cuba.
Telefax:+53-(0)7-93 09 12. Celular (para contacto solamente) 05 284 03 88
Correo electrónico: cosdec2002@yahoo.es
"América" chega ao Guardian
Aliás, o beijo entre dois personagens masculinos da novela "América" também está nesta seção do site do Guardian. Quem quiser ler que clique no título do post - a novela e por conseqüência a polêmica são muito chatas, para mim, para valerem explicação.
Jerry Maguire da vida real
Deu na seção do Guardian sobre a mídia: ao deixar a BBC por causa de um mail inapropriado seu que foi descoberto, um editor chamado Jason Deans escreveu um outro e-mail, que para muitos deve ter parecido muito mais inapropriado do que o anterior, que fazia uma brincadeira de classificação dos atributos estéticos das colegas de trabalho ("transo, caso ou jogo de um penhasco?").
Neste mail, chamado de "um mail do tipo Jerry Maguire", que Deans mandou para seus chefes e o diretor-geral da emissora de tv inglesa, Mark Thompson, ele diz que a BBC está "cheia de programas que não significam nada". Mais: acusa os colegas de ter uma atitude "sabichona, derrogatória e condescendente" diante das outras pessoas que participam de seus programas. Em suma, a BBC, segundo Deans, estaria he farewell email also criticised colleagues for having a "derogatory, condescending BBC-knows-all attitude" towards ordinary people who feature in their shows. O demissionário também lamenta a "falta de estimulação mental e de tomada de riscos" na TV, segundo o Guardian. Não deve ser o único escritório do mundo onde há isso, se serve de consolo para Deans.
Neste mail, chamado de "um mail do tipo Jerry Maguire", que Deans mandou para seus chefes e o diretor-geral da emissora de tv inglesa, Mark Thompson, ele diz que a BBC está "cheia de programas que não significam nada". Mais: acusa os colegas de ter uma atitude "sabichona, derrogatória e condescendente" diante das outras pessoas que participam de seus programas. Em suma, a BBC, segundo Deans, estaria he farewell email also criticised colleagues for having a "derogatory, condescending BBC-knows-all attitude" towards ordinary people who feature in their shows. O demissionário também lamenta a "falta de estimulação mental e de tomada de riscos" na TV, segundo o Guardian. Não deve ser o único escritório do mundo onde há isso, se serve de consolo para Deans.
sábado, outubro 29, 2005
Duke
Um desenho do Duke Ellington que fiz uma vez para tentar decorar um bar especializado em jazz em Vitória. A dona do ishtabilishimentu não se entusiasmou. Clique no título do post e vá para o site oficial dele, com fotos, músicas para baixar e até um contato para negócios com a "marca" Duke Ellington
sexta-feira, outubro 28, 2005
Sieg Heil
Você ataca seu adversário político usando para isso o fato de ele descender de uma determinada etnia, que vez por outra é acusada de ser, toda ela, responsável por uma conspiração que semeou destruição e sofrimento no mundo; além disso, distorce suas palavras. Quem fez isso, antes dos dirigentes sindicais e petistas que espalharam cartazes chamando Jorge Bornhausen de nazista? Os próprios nazistas, oras. O link deste post (clique no título) mostra como Avel, Abelmar e aquele outro petista que não tinha nome de fertilizante como os outros dois apenas seguem uma, bem, linha evolutiva da propaganda política via cartazes que descende dos nacionalistas e socialistas alemães (ou seja, dos nazistas). Mas talvez o ponto alto do cartaz foi tentar ligar os petistas aos "pretos. pobres e gays" que eles acusam Bornhausen de querer exterminar; no mesmo dia em que Avel admitia seu crime, o chefe de gabinete da presidência tentava desqualificar um depoimento em uma acareação com os irmãos do prefeito assassinado dizendo que "não dá para levar a sério o depoimento da empregada".
Raquel, bela morena
"O dinheiro nunca foi fácil, foi apenas rápido". É por frases como esta que o último post de Bruna Surfistinha no seu blog é, como dizer, um clássico da literatura da internet? É um longo (para padrões dos blogs) texto em que ela parece estar tomando um bom banho mental, jogando fora todo seu passado de prostituta e refletindo sobre ele, na sua última noite como garota de programa - a partir de hoje, ela pretende deixar de sê-lo e assumir seu nome verdadeiro, Raquel. É um grande monólogo que encerra uma grande história.
quarta-feira, outubro 26, 2005
A FRASE DO DIA foi dita hoje, segundo o Globo Online, pelo diretor do Sindicato dos Profissionais de Processamento de Dados do Distrito Federal Avel Alencar, de 42 anos, adminto que foi o responsável pela confecção de três mil cartazes com uma fotomontagem do presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), vestindo um uniforme de nazista. Ao dizer que queria processar Bornhausen por racismo por ele ter usado o termo "raça petista" (qual a pena para os locutores de futebol que pedem mais raça aos times?), ele procurou isentar a participação do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e de petistas e gente do governo do ato, como suspeitou o senador. E saiu-se com esta, para criticar o senador e assumir sozinho a feitura dos cartazes.
- O Bornhausen não reconhece que a sub-raça tem capacidade de raciocínio?
Parece que Goebbels mexeu-se na tumba: "como não pensei num slogan destes?", praguejou, em alemão.
- O Bornhausen não reconhece que a sub-raça tem capacidade de raciocínio?
Parece que Goebbels mexeu-se na tumba: "como não pensei num slogan destes?", praguejou, em alemão.
Quando vinha ao Rio, papai, como, aliás, todos os nordestinos, só se hospedava no Hotel Serrador, aquele hotel redondo ali na Cinelândia. Um dia viemos eu, ele e mamãe, e eu pedi para a gente ficar no Hotel Glória. Papai disse que não tinha dinheiro pra isso, mas acabou cedendo. Lembro até hoje da data, por motivos mais ou menos óbvios: 27 de março de 1964. Era a época de Gregório Bezerra, Francisco Julião. Sei que a usina foi invadida pelo pessoal do campo, papai teve que voltar pra Recife e nós duas ficamos no hotel. No dia 31, estoura a revolução e ele fica impedido de voltar.
Mamãe precisava falar com papai. O telefone do nosso quarto tinha sido bloqueado. Desço com ela para o restaurante e pergunto a um garçom pelo dono. Ele me aponta um homem de bigode, cabelo preto. Vou até ele:
- O senhor pode deixar a gente falar no telefone? Minha mãe precisa falar com meu pai – pedi. - Ah, minha princesinha, eu não posso fazer nada. - Mas o garçom disse que o senhor é o dono do hotel. - Não, não sou não. - Então o senhor é mentiroso ou o seu garçom é mentiroso. - O que você quer, minha princesinha? - Minha mãe precisa telefonar para o meu pai. - Então venham ao meu escritório.
Quando a gente estava saindo do escritório dele, ele vira-se pra mim e diz: - Você quer casar comigo? - O senhor é maluco? Eu não gosto de homem de bigode. O senhor parece meu pai. Ele riu muito e três meses depois nos casamos.
Maria Clara Tapajós casou-se aos 19 anos com Eduardo Tapajós, um dos proprietários do Hotel Glória no Rio. A história está no site Um Balcão na Capital - Memórias do Comércio na Cidade do Rio de Janeiro (http://www.museudapessoa.net/hotsites/sescrio/).
Mamãe precisava falar com papai. O telefone do nosso quarto tinha sido bloqueado. Desço com ela para o restaurante e pergunto a um garçom pelo dono. Ele me aponta um homem de bigode, cabelo preto. Vou até ele:
- O senhor pode deixar a gente falar no telefone? Minha mãe precisa falar com meu pai – pedi. - Ah, minha princesinha, eu não posso fazer nada. - Mas o garçom disse que o senhor é o dono do hotel. - Não, não sou não. - Então o senhor é mentiroso ou o seu garçom é mentiroso. - O que você quer, minha princesinha? - Minha mãe precisa telefonar para o meu pai. - Então venham ao meu escritório.
Quando a gente estava saindo do escritório dele, ele vira-se pra mim e diz: - Você quer casar comigo? - O senhor é maluco? Eu não gosto de homem de bigode. O senhor parece meu pai. Ele riu muito e três meses depois nos casamos.
Maria Clara Tapajós casou-se aos 19 anos com Eduardo Tapajós, um dos proprietários do Hotel Glória no Rio. A história está no site Um Balcão na Capital - Memórias do Comércio na Cidade do Rio de Janeiro (http://www.museudapessoa.net/hotsites/sescrio/).
- "Valores morais" têm decidido eleições e ganharam um peso maior em discussões políticas - e no Canadá, os valores morais da tolerância e discernimento aparentemente estão criando uma situação que, para nós, parece ser do outro mundo: André Boisclair, um candidato à liderança do partido separatista de Quebec, estava firme na disputa, apesar de nunca ter escondido sua homossexualidade.
Pois bem, no mês passado, uma reportagem mostrou que Bisclair sabia cutir a noite em Quebec - inclusive enchendo a cara e cheirando pó - ainda em 1990.
É para derrubar qualquer um, não? Mas Boisclair não tentou sair pela tangente ou largou a disputa: assumiu que consumiu cocaína sim.
O resultado: Boisclair fortaleceu-se na liderança da disputa. Pesquisas mostraram que o uso da cocaína não era um assunto para ser levado em conta na eleição.
"Foi uma maneira de mostrar compaixão e empatia pela intrusão na vida das pesoas", disse Alain Gagnon , um cientista político da Universidade Quebec em Monteral, ao New York Times, de onde eu tirei essa história, que me foi enviada por um amigo. "A tolerância é algo que define o caráter de Quebec. Isso vem de nossa história como um grupo dominado"
HOje deve ser o último dia em que poderemos acompanhar as aventuras de Bruna Surfistinha no seu blog (http://www.brunasurfistinha.com/blogs/). Ela foi o primeiro fenômeno da Internet no Brasil (?). Lógico que ler sobre seus programas era excitante, divertido, atrai. Mas o que ela diz entre um programa e outro, sobre a vida, o tédio do domingo, o bicho de estimação, a ida ao shopping, o gamão virtual, é bem escrito, sincero, e consegue exprimir o que há e o que não há na cabeça de muita gente da mesma idade que zanza por aí, sem objetivo definido, sem ter valores mais definidos, sem saber o que fazer com os primeiros anos do resto de suas vidas.
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